Thiago Chiapetti

A notícia que ninguém publicou naquele dia

Era tarde de verão e eu voltava da casa da minha mãe. Eu estava cheio, cheio de comida e cheio da ilusão de que meu corpo dava conta de tudo. Eu chegava ao Jornal de Beltrão e, antes mesmo de entrar na redação e ligar o computador, senti a minha perna amortecer enquanto subia as escadas. Não havia café recém-passado, nem barulho da rotativa, nem pessoas por perto, mas eu sentia que algo não cheirava bem. Era como se fosse um grito, e só eu podia escutar.

O tempo passou e eu recebi o diagnóstico: síndrome do pânico. Pouco se falava sobre saúde mental naquela época. Curioso: eu cobria exatamente aquilo e, mesmo assim, era a notícia que mais demorou para chegar até mim. Os anos se passaram e, aos poucos, pude entender que na vida a gente precisa virar a página. Foi assim que percebi que não estava dando conta daquela rotina. Era preciso virar a página, me reinventar, viver coisas novas, dar mais atenção às minhas próprias notícias (aquelas que ninguém lia, mas gritavam).

Como jornalista, eu pensava que sabia qual era a melhor manchete do dia. Mas aquele primeiro episódio de pânico me fez repensar, digamos, a pauta principal. Eu não sei se você já teve uma crise de ansiedade ou de pânico, mas posso apostar que sabe do que estou falando. Hoje em dia todo mundo tem ou conhece alguém que já passou por algo parecido. A gente pensa que manda na vida, quando, na verdade, quem manda é o corpo. E ele não pede favor, ele grita. A última palavra não é a do texto que escrevemos, mas a do corpo que carregamos.

Naquela tarde depois do almoço, eu nem imaginava que um dia seria psicólogo e que ajudaria tanta gente todos os dias. Eu pensava que meu trabalho era levar a notícia em forma de texto. Tantos anos depois, aqui estou eu de volta, escrevendo agora em forma de reflexões. Levou tempo, mas entendi que a maior notícia é aquela que vem de dentro. Naquele dia, o corpo publicou a manchete. E eu só consegui ler muitos anos depois.