Thiago Chiapetti

Dia de ampliar a consciência sobre privilégios

Pensei muito sobre o que escrever para o Dia da Consciência Negra. Não havia muito como escapar. Eu até poderia trocar de tema, fingir que não é comigo, mas justo hoje, no dia da minha coluna? Mas, logo eu que sou um homem branco. Como falar de um tema tão importante e, ao mesmo tempo, ainda tão distante de uma sociedade que sempre se enxergou mais branca do que realmente é? Talvez a gente até tenha avançado um pouco, mas o racismo ainda está aí, firme, nas esquinas, nas piadas, nas estruturas. Seria o caso de haver o dia da consciência branca? 

Talvez a consciência branca já exista e se manifeste todos os dias em forma de um espelho da história que reflete só uma cor. Quando o primeiro lugar é sempre o mesmo, quando o currículo escolar escolhe quem entra e quem fica de fora das páginas. Quando não se fala porque algumas crianças são adotadas, outras não. Quando o mocinho, o vilão, a empregada e a madame da novela são sempre os mesmos. Quando a foto policial se repete no jornal. Ou quando se insiste em dizer que não se tem preconceito, e que racismo não existe.

Eu mesmo cresci acreditando que racismo era só ofensa ou violência física. Demorei anos para entender que é também a ausência. O silêncio de vozes, de rostos, de referências. Na propaganda, na novela, nos livros, nos palcos. Um tipo de ausência que passa despercebida por aqueles que nunca precisaram reparar, que nunca precisaram fazer o esforço de procurar. Aqueles que sempre tiveram suas melhores bonecas, suas capas de revista, suas apresentadoras de tv preferidas.  

Por isso, o Dia da Consciência Negra é, pra mim, um dia para tentar ampliar a minha própria consciência. Uma data para escutar e reconhecer, para aprender e pesquisar sem precisar ficar perguntando. É um dia de reconhecimento do quanto o silêncio branco ajudou a pintar um mundo que não tem só uma cor. Acho que é disso que se trata: de ampliar o olhar, de aprender e ensinar a enxergar o que a gente escolheu não ver (e não reparar) durante tanto tempo em toda a história. É dia de reparação histórica.