Eu ainda nem cheguei aos 40 anos, mas a campanha do Novembro Azul me traz alguns sinais que me fazem refletir (e também rir). É como se eu lesse mentalmente: “está chegando a sua hora, rapaz”, ou então: “calma que o que é teu está guardado”. Parece um boleto que chega no e-mail: “a sua fatura está fechando, agende o pagamento e evite atrasos e juros”. Ou então uma voz imaginária e cuidadosa da nossa mãe: “olha a gastrite, depois você sabe que quem sofre é você, e eu estou avisando”.
O homem tem essa mania de não querer lidar com a própria saúde. O homem ou o jeito, digamos, machista como fomos criados (e aqui não quero me deter ao machismo). Antes dos 20 anos, o cara está lá encarando um rodízio inteiro de pizza e mandando para dentro cerveja, refrigerante e o que vier. Aos 30, já começa a pesar na consciência aquela carne mais gorda, porque o colesterol e o coração não deixam passar impunes. Aos quase 40 anos (é o meu caso), é suco detox e kombucha, e o chopinho fica para o fim de semana, que dá tempo de se recuperar antes da segunda-feira.
Os cuidados com a saúde vão se impondo com os anos, mas a gente sempre dá um jeito de empurrar com a barriga. Aliás, como é comum o homem evitar falar. Não fala ou, quando fala, é sempre motivo de piada, de mostrar o lado mais quinta série. E eu estou falando do exame de toque, sim. Com a cabeça, a gente faz a mesma coisa: evita falar de sentimentos e evita procurar terapia até o momento em que não dá mais para segurar.
Por isso, eu gosto do Novembro Azul: funciona como um despertador do ano, a hora de acordar e colocar o corpo em movimento. É um lembrete, uma voz de mãe insistente, avisando que mais cedo ou mais tarde você pode levar uma bronca. Afinal de contas, o homem precisa descobrir cedo o que anda doendo por dentro. Na saúde mental, o melhor exame preventivo não tem luva nem jaleco: é sentar diante de alguém que escuta, antes que o grito entalado vire silêncio.