Dias atrás, quebrei um copo aqui na Clínica Vince. Copo bonito, daqueles que parecem caros. Copo elegante. Estava sobre uma bandeja, ao lado de xícaras, outros copos e uma garrafa igualmente chiquérrima. Peguei um pra mim, como fazia todos os dias. Enchia de água e mandava pra dentro um, dois, três, até quatro copos (do elegante copo de vidro). Até que, em um belo dia, lá estava eu atendendo de perninha cruzada, com o copo na mesinha ao lado. De repente, o pé da perna tromba com o pé da mesa e o copo encontra o chão (pausa para o barulho de vidro trincando).
Eu só conseguia pensar nos colegas atendendo nas salas ao lado, na água todinha no chão e no tapete ensopado (e no meu trabalho de secar tudo antes do próximo paciente). Corri buscar papel toalha, arredei as poltronas, juntei os cacos cuidadosamente. No corredor, encontrei um colega que me disse que não escutou nada (bendita acústica dos consultórios de psicologia). Agora com vidros na cozinha, chão seco e o tempo se diluindo igualzinho a água no papel toalha, é hora de seguir atendendo. Mas de seguir com outro copo, o de plástico da recepção, é claro.
No outro dia, fui procurar o copo. Queria levá-lo pra casa, colocar os cacos dentro de uma caixinha de leite (daquelas que a gente lava, seca, recorta e escreve “vidro” com caneta vermelha) para descartar em um dos pontos de vidro como manda o figurino da coleta seletiva da cidade. Mas o copo tinha sumido. Ninguém viu, ninguém sabe, ninguém fala. “Deve ter sido jogado fora”, alguém disse com a naturalidade de quem diz “era só um copo qualquer”. Era só um copo, mas quem foi que mexeu nele?
Fiquei pensando nisso. No tanto de coisa que a gente joga fora achando que “fora” é um lugar mágico onde as coisas desaparecem. O copo de vidro quebrado que alguém achou que não valia mais não evapora e nem some. Pelo contrário, continua existindo por séculos. Vamos pensar que o meu copo de vidro (ou o meu lixo de vidro porque o copo não era meu) tenha sido descartado corretamente por alguém. Mesmo assim, fica a reflexão sobre o caminho que percorre o lixo, de quem mexe, remexe, recicla. E transforma lixo em novos copos e copos em outros lixos (quebrados e mexidos como o meu).