Quando eu digo que atendo pacientes em mais de 20 países, parece que eu sou um nômade digital. Aquelas fotos no instagram em frente à Torre Eiffel, notebook aberto, café ao lado fumaceando. Só que não. A minha torre não é a de Paris, mas a da concatedral, bem no centro de Francisco Beltrão. Vista para os montes que não são os da Suíça, mas o do nosso cristo redentor com barulho do trânsito e de gente que vai-e-vem por aqui mesmo. É daqui que eu atravesso os oceanos sem sair da cadeira e de olho em nosso rio marrecas, caro leitor, cara leitora.
De lá de fora, os meus pacientes chegam com sotaques misturados, com saudade de pão de queijo e cheiro de feijão. A gente acha que morar no exterior é só ganhar dinheiro em dólar, mas é mais preocupação com papelada do que champanhe, mais silêncio do que festa. Nesse tempo em que estou atendendo como terapeuta online, já escutei da língua que tropeça, do frio que não passa, da solidão que não cabe numa mala. E eu escuto. Escuto até a saudade respirar mais leve.
Um dia, eu também sonhei em morar fora. Passaporte italiano na mão, dez anos de espera. E quando finalmente chegou, pensei: será que eu quero mesmo? Escutar tanta gente lá de fora me fez repensar. A vida é feita de viagens, mas também de raízes. Por enquanto, fico por aqui escutando quem é de fora, mas também a nossa gente. Se antes corria atrás de notícias (em meus tempos de jornalista), agora corro atrás de gente. Ou melhor, espero que elas venham até mim. E elas vêm. De Portugal, do Japão, da Irlanda e de Beltrão.
Neste trabalho de entregar acolhimento a quem mais precisa, estou aprendendo que estar presente não depende de um espaço geográfico. E é nesse espaço entre o lá e o cá que eu sigo, ajudando quem está longe a se sentir um pouco mais em casa. Porque, às vezes, o que o ser humano mais precisa não é de um mapa, mas de alguém que o ajude a encontrar o caminho de si, seja através da tela ou do encontro presencial. O que importa é a direção que aponta para dentro: o próprio mundo de cada um.