Thiago Chiapetti

Uma visita inesperada e nada cor de rosa

Parei o carro no estacionamento da clínica e, ainda dentro do carro, comentei que era um exagero tudo aquilo, que a gente logo iria tomar um café. Tínhamos planos para morar um tempo fora da cidade, fazer um curso, curtir a nossa serra gaúcha. Mas aquela visita chegou inesperadamente, e não estou falando do médico atrás da sua mesa com olhar preocupado. O silêncio que se estendeu durante todo o momento do diagnóstico foi ensurdecedor: “é um tipo de câncer de mama”. É algo simples, não é mesmo, doutor?

Na saída, de novo dentro do carro: cancela isso, troca aquilo, avisa aquele outro. E o nosso café, a festinha de aniversário da nossa filha… tudo colocado em espera. O câncer de mama estava à nossa porta batendo sem parar. Mas como lidar com uma visita dessas? Coloca uma vassoura atrás da porta? Ou então fala que você já estava de saída, que acabou o café e que não tem bolo de fubá ou que aconteceu uma emergência na escola da criança. 

Mais de dois anos depois, de novo o Outubro Rosa. Em casa, nós já sabemos que os meses de cirurgia e tratamento tiveram muitas cores… Algumas borraram, outras nem apareceram. Parece que o rosa, mesmo, só nas campanhas de prevenção. E está tudo bem, pois cada um pinta a sua batalha com as cores que tem à mão. Quando leio no Jornal de Beltrão do mês passado que o câncer ainda vai aumentar nos próximos anos, lembro das noites, das lágrimas e da vida que seguiu teimosa, amanhecendo todos os dias em nossa casa.

Para mim, fica o susto e a certeza de que uma visita dessas tira qualquer um da zona de conforto. É como sair do sofá e, de repente, estar na lavanderia: lavando, secando e passando a vida de novo. E se a vida insiste em mandar visitas indesejadas, a gente aprende. Descobre que o tempo corre mais devagar quando tem café, bolo de fubá e a companhia de quem está sempre por perto. No fim das contas, é bem melhor quando é uma visita esperada.